Revenue Management: a disciplina que nasceu para gerar rentabilidade — não apenas receita
Há certas ideias na hotelaria que parecem óbvias hoje, mas só parecem óbvias porque alguém as formulou primeiro, testou, errou, corrigiu e provou que funcionavam. Revenue Management é uma dessas ideias.
Hoje qualquer conversa sobre estratégia hoteleira menciona conceitos como RevPAR, ADR, Forecast, pricing dinâmico, segmentação de demanda ou canais de distribuição. Mas houve um tempo em que a hotelaria operava com uma lógica muito mais simples: vender quartos, perseguir ocupação e celebrar receita bruta.
O problema é que receita bruta nunca contou a história completa.
Foi exatamente para resolver essa distorção que nasceu o Revenue Management moderno.
A disciplina surgiu originalmente na aviação comercial, onde o problema econômico era claro: o assento vazio de hoje nunca poderia ser vendido amanhã. A capacidade era fixa, a demanda era incerta e os clientes tinham disposições a pagar completamente diferentes.
Quando essa lógica foi trazida para a hotelaria, o produto mudou — de assento para quarto —, mas a natureza do desafio continuou exatamente a mesma: como transformar capacidade perecível em valor econômico máximo.
A Marriott e o nascimento do Revenue Management na hotelaria
Entre o final dos anos 80 e o início dos anos 90, a cadeia Marriott foi a primeira grande empresa hoteleira a implantar de forma estruturada um sistema de Yield and Revenue Management.
A lógica era simples e revolucionária ao mesmo tempo.
Os hotéis estavam frequentemente cheios, mas não necessariamente com os clientes certos.
O que acontecia era o seguinte:
- grupos reservavam com meses de antecedência
- pagavam tarifas mais baixas
- ocupavam grande parte do inventário
Quando chegava mais perto da data da hospedagem, surgia a demanda corporativa — que pagava tarifas muito mais altas.
Mas o hotel já estava cheio.
Cheio… porém barato.
A Marriott percebeu que estava cometendo um erro estratégico: vender cedo demais para a demanda errada.
A solução foi introduzir algo que hoje parece trivial, mas que na época era revolucionário: previsão de demanda combinada com controle de inventário.
O hotel passou a decidir:
- quais reservas aceitar
- quantos quartos proteger
- quando abrir tarifas
- quando fechar disponibilidade
Foi o nascimento do Revenue Management moderno.
A contribuição de Robert G. Cross
Poucos nomes são tão associados à difusão dessa disciplina quanto Robert G. Cross.
Ele ajudou a traduzir a lógica técnica da aviação para uma filosofia estratégica aplicável a vários setores, incluindo hotelaria, rent-a-car e entretenimento.
Sua formulação clássica tornou-se quase um mantra do setor:
vender o produto certo, ao cliente certo, no momento certo, pelo preço certo, pelo canal mais rentável – ou de menor comissão.
Note que a frase não fala em vender mais.
Fala em vender melhor.
É por isso que muitos profissionais experientes resumem a filosofia de Cross de forma ainda mais direta:
Revenue Management não é gestão de receita.
É gestão de rentabilidade.
Quando a hotelaria quase esqueceu essa lição
No início dos anos 2000, surgiu um novo fenômeno que transformou completamente a distribuição hoteleira: as OTAs.
Plataformas como Booking e Expedia ampliaram enormemente a visibilidade dos hotéis e facilitaram o processo de reserva.
Mas trouxeram um novo problema.
Os hotéis passaram a vender cada vez mais através desses canais, pagando comissões que frequentemente variam entre 15% e 30%.
E então surgiu um paradoxo curioso.
Hotéis estavam:
- mais cheios
- vendendo mais
- registrando mais receita
Mas muitas vezes ganhando menos dinheiro.
O motivo era simples.
Duas reservas com a mesma tarifa podiam ter resultados econômicos completamente diferentes dependendo do canal.
Uma reserva direta poderia gerar quase toda a receita para o hotel.
Uma reserva via OTA poderia consumir até um terço dela em comissão.
| Valor da diária | Valor Vd. Direta | Valor OTA | Rentabilidade |
| R$: 500,00 | 30,00 | 18% = R$: 90,00 | R$ – 380,00 |
| R$: 500,00 | 30,00 | —————– | R$ – 470,00 |
Embora o valor recebido seja o mesmo – o que sobrou é bem diferente.
Foi nesse momento que a indústria percebeu que precisava evoluir novamente.
A evolução para Total Revenue Management
Com o tempo, o setor passou a perceber que Revenue Management não poderia se limitar apenas ao quarto.
Surgiram conceitos como:
- TRevPAR
- GOPPAR
- Total Revenue Management
- Commercial Strategy
A lógica passou a incluir não apenas:
- preço do quarto
- ocupação
Mas também:
- custo de aquisição
- receita total do hóspede
- consumo interno
- valor do cliente ao longo do tempo.
Era a hotelaria redescobrindo algo que os pioneiros já sabiam:
não basta vender.
É preciso vender com inteligência econômica.
O ERRO QUE CONTINUA ACONTECENDO
Mesmo hoje, com toda tecnologia disponível, muitos hotéis continuam cometendo um erro clássico:
confundir performance comercial com performance econômica.
Um hotel pode ter:
- alta ocupação
- ADR elevado
- RevPAR impressionante
E ainda assim não estar maximizando rentabilidade.
O motivo é simples.
Nem toda ocupação tem o mesmo valor.
Nem toda receita tem o mesmo lucro.
A verdadeira essência do Revenue Management
Se tivermos que resumir toda a filosofia da disciplina em uma única ideia, ela seria esta:
Revenue Management é a arte de transformar capacidade perecível em rentabilidade máxima.
Não se trata de vender mais quartos.
Trata-se de vender os quartos certos:
- para os clientes certos
- no momento certo
- pelo preço certo
- no canal certo.
A grande lição da história
Ao olhar para a evolução da hotelaria nas últimas décadas, uma conclusão se torna evidente.
A tecnologia mudou.
Os canais mudaram.
Os algoritmos ficaram mais sofisticados.
Mas o princípio fundamental permanece o mesmo desde os primeiros experimentos da Marriott:
um quarto vendido errado pode destruir valor.
Por isso, Revenue Management continua sendo, antes de tudo, uma disciplina de decisão estratégica.
E talvez a melhor forma de resumir essa história seja com uma frase simples:
RM ruim celebra ocupação.
RM mediano celebra receita.
RM bom entrega rentabilidade.
(Revenue Management preconiza sempre e só RENTABILIDADE).



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